Capela Árvore da Vida / Cerejeira Fontes Arquitectos

Tal como as plantas, a Árvore da Vida germinou lentamente numa sensibilidade que se desenvolveu ao longo dos últimos cinco anos.

A capela corresponde ao sétimo dia, consagrado ao repouso doxológico. Na caixa envolvente, em matéria cimentícia de tons e relevos caóticos, o programa icônico explora num políptico da pintora Ilda David’, motivos dos primeiros seis dias. Na recapitulação simbólica de todo o tempo, nós encontramo-nos no espaço dedicado à nossa santificação e à glorificação de Deus, isto é, no jardim terrestre que, pela tipologia icônica do ambão, se transforma no jardim do tempo pascal. Somos desta forma convocados para fazer a trajetória do caos ao cosmos, colocando-nos no mundo na prossecução da obra criadora de Deus.

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A biblioteca espiritual, que se encontra sob a capela, no banco do nártex e no lado nascente, é alicerce duma cultura sapiencial que cresce na leitura.

O eixo oblíquo, de porta a porta nos ângulos, de forma a explorar o caminho mais longo no interior. Como nos labirintos nas catedrais da Idade Média ou nos pavimentos cosmatescos nas basílicas e capelas romanas, o mistério procura-se, mesmo se a passo de dança na aproximação ao altar.

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As paredes, com espessura variável entre os 5 e 200 cm, construídas com luz e matéria, duma transparência e dinamismo pascal. A clareira, nas alturas, que assinala o itinerário entre as árvores do jardim.

A porta de entrada sem portadas, porque aberta pelo Crucificado, como se lê na carta do Espírito à Igreja de Filadélfia. A pequena câmara num dos ângulos interiores, destinada à Reserva Eucarística, com um banco só, proporciona o diálogo íntimo e personalizado com Jesus.

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O altíssimo canal de luz que ilumina, numa perspetiva zenital, o nártex e a caixa de luz do andar superior que, desde os corredores suspensos, garante o necessário diálogo com a cidade.

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O altar configura-se como um verdadeiro monumento à teologia eucarística: na vertical, trabalha-se a dimensão sacrificial, com uma pedra dramática que ostenta uma esquina partida (lado aberto de Cristo); na horizontal, explora-se a dimensão convivial, a partir do arquétipo da mesa maceira, em carvalho nacional, com tampo em duas tábuas e um nó numa delas. Um laço, que entra tanto na pedra quanto na madeira, sublinha a unidade intrínseca destas duas dimensões do sacramento da Eucaristia.

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O sacrário é feito de madeira de freixo, com forma cúbica. Inspira-se no capítulo X da Didaché, onde, numa belíssima oração de ação de graças, se pede que o Espírito reúna a Igreja “dos quatro ventos da terra”. A sua abertura faz-se de forma ritualizada, com a possibilidade de abrir quatro das seis faces. Um rolo de madeira de oliveira, com aros e copa de prata dourada, conserva dentro do cubo o Pão Eucarístico.

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Projeto: Cerejeira Fontes Arquitectos

Localização: Braga, Portugal

Ano: 2010

Fotografia: Cerejeira Fontes Arquitectos

Texto: Joaquim Félix de Carvalho (Resumo)

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