Casa 4×30 / CR2 Arquitetos + FGMF Arquitetos

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CR2Arquitetura conjuntamente com a FGMF Arquitetos desenvolveram o projeto para a Casa 4×30. Encravada num renque de estreitas casas geminadas, a história começou mais como um desafio do que como um projeto de arquitetura. Como encaixar naquele lote de 4x30m todo o programa de uma casa, contando com poucas faces iluminadas?

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A resposta, apesar de o objeto ser aparentemente simples, veio através de muita pesquisa. Das minúsculas casas japonesas e holandesas, emprestamos mais do que a certeza de que seria possível aproveitar o pouco espaço de maneira criativa: os exemplos também induziram certa implosão do programa da casa pequeno-burguesa. A proposta arquitetônica encerra uma lógica pouco alinhada ao espaço convencional para o estereótipo da família de classe média paulistana, lança mão de espaços integrados e elimina outros considerados obrigatórios.

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A ocupação do lote foi um dos principais condicionantes para o desenvolvimento do projeto. A busca por iluminação e ventilação naturais condicionou a ênfase no jardim central, recortado no volume construído de forma a criar três fachadas generosamente banhadas de luz. Unidos por uma passarela em torno do jardim, dois blocos de tamanhos diferentes organizam as funções da casa e obrigam os moradores a desfrutar do verde em todos os deslocamentos. O bloco maior concentra sala e cozinha no térreo e quartos no pavimento superior; o menor contém ambientes de apoio como área de serviço, escritório e a circulação vertical da casa.

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A essa escolha seguiu-se a intenção de perverter os limites do jardim com portas de vidro retráteis, de maneira a integrar totalmente a sala ao espaço externo. Neste ponto, uma encruzilhada conceitual: se a sala abre-se para o jardim, a única opção para a cozinha era ficar voltada à fachada.

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A largura do lote e a relação sala-jardim implicaram, portanto, que a entrada da casa se desse por um espaço de serviço, e a solução encontrada foi ir contra o impulso inicial de escondê-lo. Destacá-lo na forma e integrá-lo espacialmente passou de obstáculo a oportunidade de projeto. O rebaixamento do seu piso em 75cm, além de aumentar o pé-direito, trouxe duas consequências importantes. A primeira foi a criação de uma passagem elevada, de forma que a entrada da casa não se desse propriamente pela cozinha, mas por um eixo de circulação que se estende por toda a casa, organizando-a numa lógica imediatamente identificável. A segunda foi a estranha continuidade entre o nível da sala e a mesa de jantar, integrada à ilha com forno embutido. Rebaixada, a cozinha se oferece ao visitante por uma perspectiva inusitada. Integrada à sala pela mesa-piso, pela bancada que transborda de um ambiente ao outro, pelos materiais e detalhes, a cozinha coloca-se como parte do mesmo espaço, mas o rebaixamento do nível ressalta a diferença entre os programas.

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Pairando sobre os vazios de alturas diferentes da sala e da cozinha, um grande objeto branco flutua. Destacado do eixo de circulação, o paralelepípedo revestido de lambris de alumínio transgride os limites da fachada frontal e se afasta da empena esquerda, permitindo visualização de um painel de ladrilho hidráulico. O volume acomoda duas suítes, acessíveis pela passarela de malha expandida que se interrompe para criar um pé-direito generoso sobre a passagem da entrada. Neste átrio linear e através da malha expandida da passarela, tem-se a noção da continuidade do painel artístico assinado pelo artista Fabio Flaks. Ele ocupa toda a empena, escoltando a circulação horizontal em todos os pavimentos, e remete aos grandes painéis que foram um traço característico da boa arquitetura moderna brasileira. Com um prolongamento intencional, este painel se apresenta à rua e define a entrada da casa, enquanto um discreto pano de vidro permite ao observador externo vislumbrar a continuidade da peça de arte, que se oferece como parte da paisagem urbana. Totalmente aberta, a garagem de piso permeável também é um exercício de generosidade com a paisagem da cidade, frequentemente agredida pelos muros altos que refletem a paranoia da segurança e o delírio de privacidade que nega a própria urbanidade.

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Sobre a caixa dos quartos, um grande deck ocupa a cobertura e cria um novo espaço de fruição, emoldurado por uma faixa de teto verde. O solário dá acesso para manutenção dos equipamentos de ar-condicionado e aquecimento de água, mas é, sobretudo, um espaço de lazer que complementa o jardim do térreo. Para o casal que vivia em apartamento, qualquer centímetro quadrado ao ar livre configura uma grande conquista.

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Apesar de se distanciar do concreto armado usual, a estrutura metálica empregada é extremamente simples. Esbeltas vigas metálicas cruzam o espaço e apoiam-se em pilares embutidos nas empenas laterais. O conceito da construção seca é apropriado também nos demais sistemas empregados, como paredes de gesso e placas cimentícias, lajes de painel de madeira, passadiços metálicos, grandes caixilhos e pisos de placas de borracha, resina ou deck flutuante. No conjunto, trata-se de uma casa de construção eficiente, rápida e precisa, sem desperdícios e retrabalhos. O materiais empregados são tão recicláveis quanto a própria casa, que pode ser facilmente adaptada ao longo do tempo ou simplesmente desmontada quando necessário.

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O painel de ladrilhos, de desenho singelo, compõe com o piso de resina de poliuretano e com o alumínio da caixa um cenário de grande simplicidade e brancura, só rompido pela exuberância do jardim, de um lado, e pelo força da empena preta que protege o interior dos olhares da rua, no lado oposto. A obsessão pelo branco não é puramente forma, embora a busca por um espaço simples fosse uma premissa do partido: é, antes de tudo, uma estratégia para refletir a luz internamente, levando-a a todos os pontos da casa.

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O jardim também tem seu papel na eficiência da casa. Além de permitir uma área permeável superior à exigida por lei, o espaço gramado conta com uma pitangueira e uma vistosa parede verde que refrescam naturalmente e criam uma zona de baixa pressão. O ar, resfriado, cruza a sala em direção à janela da cozinha, renovando o ar e garantindo condições térmicas adequadas para a maior parte do ano. No inverno, a tela externa que protege a fachada do poente pode ser recolhida para que a insolação ajude a aquecer o ambiente.

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Além da tela retrátil, outros elementos como os brises de malha expandida, o ecotelhado, o deck da cobertura que sombreia a telha metálica, o uso de isolantes termo-acústicos nas vedações e janelas de vidro duplo nos quartos garantem um desempenho térmico acima da média.

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O resultado, no final, é uma pequena casa em tamanho, mas grande pela integração e continuidade dos seus espaços, pelo uso da luz e pela flexibilidade do programa menos rígido do que uma casa convencional.

Projeto: CR2Arquitetura / FGMF Arquitetos

Localização: São Paulo, Brasil

Ano: 2011

Área Terreno: 120,00 m2

Área Construída: 156,00 m2

Fotografia: Fran Parente

Texto: CR2Arquitetura

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