Casa Barreira Antunes / Aires Mateus

BA_aires_matheus (3)

Nesta parte da Costa Alentejana existem várias casas abandonadas dispersas pela paisagem. Os vestígios de cal ainda resistem em muitas delas, envolvendo as espessas paredes, apoiadas por contrafortes, desproporcionados em relação à modesta dimensão das construções.

BA_aires_matheus (2)

São volumes elementares com poucas aberturas e que estabeleceram com a paisagem, eventualmente como as pessoas que neles habitaram, uma relação de total reciprocidade. Dir-se-ia que estão, no seu abandono lacônico, o mais distante possível da contemporaneidade, esta última muitas vezes associada a construções diáfanas em vidro, tecnologicamente sofisticadas. A casa concebida pelos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus, sendo inequivocamente contemporânea, nas suas qualidades e limitações, é o resultado de um olhar atento, e nada nostálgico, sobre essa forma secular de habitar a paisagem.

BA_aires_matheus (4)

Quando se avista ao longe, surge como um sólido branco pousado na linha de festo de uma colina. Não existem quaisquer aberturas. A sugestão platônica – um sólido branco com uma escala doméstica – não impede que se adivinhe que se trata de uma casa. Habitar significa neste caso, e em geral no percurso recente destes arquitetos, uma procura serena pela elementaridade, pela redução ao mínimo dos elementos que compõem a casa. Para que se construa apenas o essencial e se relativize, tanto quanto possível, a impressão digital do passageiro e do sazonal. Nesta casa a “ideia” sobre um modo de habitar ganhou materialização, fato pouco habitual na arquitetura portuguesa, pelos pressupostos de radicalidade que esta passagem habitualmente implica.

BA_aires_matheus (5)

Adivinha-se um sentido de “espaço escavado” no interior; paredes espessas e recurso a poucos materiais. Mas não é só isso. As duas portas de madeira (na verdade dois pesados painéis que correm elegantemente), uma orientada a nascente, a outra a poente, quando abertas, permitem uma nova complexidade. A casa pode estar totalmente aberta ao exterior, e em simultâneo ser um organismo de espaços escavados na massa “branca”. E nesta dualidade, entre máxima permeabilidade com a paisagem e máxima introspecção, reside a sua riqueza conceptual e espacial.

BA_aires_matheus (1)

No interior os arquitetos introduziram um elemento imponderável: um pátio ao centro da casa, em relação ao quais todos os espaços de disponibilizam. Não é o pátio habitualmente visto nas arquiteturas mais recentes, aberto à casa. Aqui este elemento vai impedir que a casa seja atravessada com olhar, funciona novamente com o sentido de muro e de espessura. Trata-se de um pátio próximo da arquitetura arcaica, do mundo mediterrâneo; está fechado sobre si próprio, abrindo-se apenas à face sul, revelando uma árvore no exterior. A luz, manipulada serenamente, invade o interior completamente branco. Esta estratégia vai repetir-se numa trama de pequenos pátios que iluminam todos os espaços domésticos – quartos, casas de banho e cozinha – e permitem relações voyerísticas entre si.

BA_aires_matheus (7)

A luz é definitivamente o tema eleito neste projeto. No exterior é um sólido idealizado sob o Sol. No interior, mais do que a óbvia tentativa de flexibilidade funcional dos espaços, através das proporções dos espaços e de uma luz onipresente e difusa, trata-se de uma relação simbiótica entre essa luz e um sentido de escavação: novamente de um tema arcaico.

BA_aires_matheus (10)

O arquiteto espanhol Alberto Campo Baeza escreveu, num pequeno texto intitulado “Em torno da Luz”, “Podemos dizer que a chave reside na compreensão profunda da luz como matéria, como material, um material moderno”.

BA_aires_matheus (12)

Projeto: Aires Mateus

Localização: Grândola, Alentejo, Portugal

Ano: 2000

Fotografia: Aires Mateus

Texto: Ricardo Carvalho

Artigo Anterior © Fran Parente Residência Alameda Campinas / Maurício Arruda Arquitetos + Designers
Próximo Artigo © Flavia Machado Restaurante Le Manjue Organic / Flávia Machado